Você não tem medo de ficar para trás, mas de que o chão esteja se movendo.
- Igor B.
- 10 de abr.
- 6 min de leitura

Toda segunda-feira, um novo modelo é anunciado. Toda sexta, uma thread no X transforma um lançamento em manifesto geracional. E na semana passada, nem precisou de lançamento: a Anthropic acidentalmente vazou quase 3.000 arquivos internos de seu CMS — incluindo um rascunho de blog descrevendo um modelo chamado Claude Mythos, internamente codinomeado "Capybara", posicionado acima de toda a linha Opus. O documento dizia, com toda a sobriedade: "o modelo de IA mais poderoso que já construímos." A empresa confirmou a existência do modelo. Ainda não há acesso público.
Você respirou fundo e sentiu aquilo de novo.
Aquele aperto no peito não é ambição. É #FOMO industrializado.
O problema não é o volume de novidades, é a arquitetura do desejo que elas produzem.
Félix Guattari chamou a atenção para os processos de subjetivação capitalística — como o sistema não apenas vende produtos, mas fabrica formas de desejar. Você não quer o Claude Mythos. Você quer ser o tipo de profissional que teria acesso ao Claude Mythos. A distinção importa. Porque o primeiro é uma ferramenta. O segundo é uma identidade em negociação permanente com o mercado.
Vilém Flusser, décadas antes dos LLMs, descreveu com precisão o que vivemos: a imagem técnica não apenas representa o mundo — ela o programa. Cada novo modelo generativo não documenta uma realidade de trabalho; ele projeta como o trabalho deveria ser, redefinindo implicitamente quem está apto a exercê-lo. O vazamento do Mythos não foi um acidente corporativo qualquer. Foi uma imagem técnica liberada sem moldura — e o efeito foi imediato: fóruns em pânico, threads de análise, posts de "o que isso significa para a nossa área".
Friedrich Nietzsche perguntaria: quem, exatamente, está exercendo a vontade aqui?
O vazamento como evento filosófico
O que a Anthropic acidentalmente publicou não foi apenas um draft de produto. Foi a estrutura de um desejo coletivo prestes a ser ativado.
A Anthropic confirmou que está testando o Claude Mythos depois que um erro de configuração em seu sistema de gerenciamento de conteúdo tornou quase 3.000 arquivos internos publicamente acessíveis. O porta-voz da empresa descreveu o modelo como uma "mudança de patamar" e "o mais capaz que já construímos", atualmente sendo testado por um seleto grupo de clientes com acesso antecipado.
Os documentos vazados descrevem o Mythos como atualmente muito à frente de qualquer outro modelo de IA em capacidades de segurança cibernética, levantando sérias preocupações de uso dual.
Em seguida, um segundo vazamento expôs 512.000 linhas do código-fonte do Claude Code — revelando funcionalidades inéditas, incluindo um "Undercover Mode" que remove qualquer rastro da Anthropic de sessões abertas em repositórios públicos.
Dois vazamentos. Uma semana. O ciclo de #DesignThinking virou thriller corporativo.
O que o Mythos redefine — e por que isso importa para quem projeta
Guattari falava de máquinas desejantes que operam abaixo do nível da consciência. O Claude Mythos não precisa existir publicamente para já estar funcionando como uma dessas máquinas: ele reorganiza expectativas, invalida metodologias, reconfigura hierarquias de competência antes mesmo de qualquer acesso.
Para profissionais de design e tecnologia, isso tem consequências concretas:
O benchmark muda antes do produto chegar. Quando os documentos internos descrevem o Mythos como entregando pontuações dramaticamente mais altas em benchmarks de codificação e raciocínio acadêmico, o efeito imediato não é entusiasmo — é uma reavaliação silenciosa do que "bom" significa no seu trabalho atual.
A IA generativa deixa de ser ferramenta e passa a ser régua. Flusser diria que a imagem técnica converteu o profissional em funcionário de seu próprio instrumento. Quando um modelo inédito redefine o que é possível, tudo o que você entregou até ontem envelhece de forma acelerada — mesmo que continue funcionando perfeitamente.
O acesso vira capital simbólico. O modelo atualmente está sendo testado por um pequeno grupo de clientes empresariais com acesso antecipado, e permanece computacionalmente intenso demais para lançamento geral. A escassez não é técnica. É de posicionamento. Quem tem acesso define o que vem a seguir. Quem não tem, espera e observa — e sente aquilo de novo.
A vontade de potência não é sobre o modelo, é sobre você.
Nietzsche distinguia entre força reativa — aquela que se define pela negação do outro — e força ativa, que afirma a partir de si mesma. O FOMO tecnológico é, em essência, força reativa. Você não está correndo em direção a algo. Está fugindo da imagem de quem não conseguiu acompanhar.
Isso não é crescimento profissional. É agitação produtiva disfarçada de desenvolvimento.
A pergunta que Guattari faria — e que vale fazer a si mesmo antes de abrir a próxima thread de hype — é: esse desejo é seu, ou foi fabricado para você?
O chão não para de se mover, mas você pode escolher como ficar de pé.
Adotar cada modelo novo compulsivamente não é estratégia. É sintoma. O profissional que vai importar nos próximos três anos não é o que testou o Mythos primeiro. É o que desenvolveu julgamento suficiente para saber quando uma nova ferramenta muda o jogo — e quando é só mais ruído.
Flusser nos lembrou que somos programados pelas imagens técnicas que consumimos. Guattari nos lembrou que os desejos que sentimos nem sempre são os nossos. Nietzsche nos lembrou que a força que vale cultivar não responde ao medo — ela define seu próprio território.
O Claude Mythos vai chegar. Vai redefinir coisas. E depois virá outro.
A questão não é se você vai usar e sim de onde você vai usar.
Com que frequência você confunde atualização com posicionamento? E qual delas, de fato, está construindo sua autoridade?
Referências do artigo
Fontes jornalísticas — caso Claude Mythos
Fortune — Bea Nolan. Exclusive: Anthropic 'Mythos' AI model representing 'step change'. 26 mar. 2026. Disponível em: fortune.com
Fortune — Nick Lichtenberg. Anthropic leaks its own AI coding tool's source code in second major security breach. 31 mar. 2026. Disponível em: fortune.com
Techzine Global. Details leak on Anthropic's "step-change" Mythos model. 27 mar. 2026. Disponível em: techzine.eu
WaveSpeedAI Blog. What Is Claude Mythos? Leak, Capybara Tier & What Anthropic Confirmed. 30 mar. 2026. Disponível em: wavespeed.ai
Sovereign Magazine. Anthropic Accidentally Leaked Claude Code Source Code. 31 mar. 2026. Disponível em: sovereignmagazine.com
Euronews. What is Anthropic's Mythos? The leaked AI model that poses 'unprecedented' cybersecurity risks. 30 mar. 2026. Disponível em: euronews.com
Félix Guattari — obras de referência
Os conceitos de subjetivação capitalística e máquinas desejantes utilizados no artigo têm base nas seguintes obras:
GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1986. (Obra central para o conceito de subjetivação capitalística e produção de desejo — a mais acessível para quem quer começar em Guattari)
GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. São Paulo: Ed. 34, 1992. (Obra madura de Guattari; retoma a questão da subjetividade e como produzi-la em contextos de mutação tecnológica)
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2010. (Origem do conceito de máquinas desejantes e da crítica à captura do desejo pelo capitalismo)
GUATTARI, Félix. Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. (Ensaios sobre micropolítica e produção de subjetividade no Capitalismo Mundial Integrado)
Vilém Flusser — obras de referência
O conceito de imagem técnica como programação do real — e do homem tornando-se funcionário do aparelho — tem origem em:
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Hucitec, 1985. (Obra fundante; introduz os conceitos de aparelho, programa, imagem técnica e funcionário — diretamente aplicados no artigo)
FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2012. (Continuação direta da Filosofia da caixa preta; aprofunda como as imagens técnicas substituem e reprogramam a realidade)
FLUSSER, Vilém. Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar. São Paulo: Annablume, 2011. (Desenvolve como o tempo histórico linear cede lugar ao tempo circular dos programas — relevante para o ciclo de lançamentos de IA)
FLUSSER, Vilém. O mundo codificado. Org. Rafael Cardoso. São Paulo: Cosac Naify, 2007. (Coletânea de ensaios sobre design, comunicação e o papel dos códigos na produção de sentido)
Friedrich Nietzsche — obras de referência
O conceito de força ativa versus força reativa, central na conclusão do artigo, é trabalhado principalmente em:
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra. (Múltiplas edições em português; Companhia das Letras é a referência mais acessível — o capítulo "Da superação de si" é onde o conceito aparece mais diretamente)
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. (Aqui Nietzsche articula explicitamente a distinção entre moral do senhor e moral do escravo — força ativa vs. reativa — que sustenta o argumento final do artigo)
NIETZSCHE, Friedrich. Para além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. (Onde Nietzsche desenvolve a crítica à modernidade e a ideia do filósofo como criador de valores — relevante para o CTA do artigo)
NIETZSCHE, Friedrich. A vontade de potência. (Org. póstumo; edição brasileira pela Contraponto — use com ressalva: trata-se de compilação organizada pela irmã de Nietzsche após sua morte)













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