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Design é Decisão: um ensaio a partir do paradoxo de Epicuro

  • Foto do escritor: Igor Baliberdin
    Igor Baliberdin
  • 30 de jan.
  • 7 min de leitura

Como a filosofia antiga ilumina o trilema contemporâneo entre custo, complexidade e resultado, e por que maturidade organizacional está em aceitar trade-offs, não em evitá-los


Epicuro com vestimentas de executivo em uma salade escritório com um ar colonial e mais alguns filosofos

Introdução: O paradoxo que atravessa milênios

Em algum momento do século IV a.C., o filósofo grego Epicuro formulou um dos paradoxos mais duradouros da tradição ocidental. Preservado por Lactâncio em De Ira Dei (Sobre a Ira de Deus), o argumento questiona a coexistência de três atributos divinos:

“Deus, ou quer eliminar os males e não pode, ou pode e não quer, ou nem quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente — o que contradiz a natureza de Deus. Se pode e não quer, é malevolente — o que é igualmente contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é tanto malevolente quanto impotente, portanto não é Deus. Se quer e pode — o único compatível com a natureza divina — de onde vêm os males, e por que não os remove?”

O paradoxo não é uma refutação da existência de Deus, mas uma demonstração de que certos atributos, quando posicionados simultaneamente, geram tensões estruturais irresolvíveis. É uma lição sobre os limites de sistemas — mesmo sistemas teológicos.

No campo do design contemporâneo, enfrentamos um trilema estruturalmente análogo: custo, complexidade e resultado. Assim como no paradoxo filosófico, a tentativa de maximizar simultaneamente essas três dimensões nos conduz a contradições práticas. Queremos excelência com orçamento reduzido e baixa complexidade — um ideal que, na maioria dos contextos, não se sustenta na realidade.

Por isso, dizer que design é decisão não é retórica motivacional. É o reconhecimento de que todo sistema opera sob restrições, e que gerir estrategicamente significa, inevitavelmente, aceitar trade-offs conscientes.


A falácia da onipotência gerencial

Epicuro nos ensina que certos sistemas impõem limites inevitáveis. No design, esse sistema é tecido por orçamento, tempo, tecnologia, capacidade das equipes e dinâmicas competitivas. Desejar um resultado excepcional com investimento mínimo e uma solução simplista para um problema intrinsecamente complexo é o equivalente gerencial a exigir que a divindade seja simultaneamente onipotente, benevolente e alheia ao mal: uma expectativa que ignora as leis da realidade operacional.

Richard Buchanan, em seu artigo seminal “Wicked Problems in Design Thinking” (1992), argumenta que problemas de design são wicked problems — problemas complexos, mal-definidos, sem solução única ou critérios claros de resolução.2 Esses problemas não admitem otimização simultânea de todas as variáveis. Cada decisão revela novos desdobramentos; cada solução gera novas perguntas.

A questão, portanto, não é se haverá restrições, mas quais restrições serão estratégicas e quais serão imposições não examinadas. Design maduro é governança de prioridades: o exercício deliberado de escolher onde investir energia, onde aceitar concessões e onde sustentar padrões inegociáveis.

Organizações que operam sob a falácia da onipotência gerencial acreditam que basta “trabalhar mais duro” ou “ser mais ágeis” para transcender trade-offs estruturais. O resultado é exaustão das equipes, rotatividade de talentos e entrega de produtos medianos que não atendem nenhuma prioridade plenamente.


Dissonância Estratégica: onde o discurso e a decisão se separam

Considere uma organização que afirma, em seus valores declarados, buscar excelência na experiência do cliente. No entanto, essa mesma organização:

  • Não aloca orçamento para pesquisa qualitativa com usuários

  • Não permite iterações no cronograma de produto

  • Rejeita questionamentos sobre premissas de negócio vindos do time de design

  • Define sucesso exclusivamente por velocidade de entrega, não por impacto mensurável

Essa organização vive o que podemos chamar de dissonância estratégica: o desalinhamento entre o que se declara no slide corporativo e o que se decide efetivamente na planilha de alocação de recursos.

No paradoxo de Epicuro, essa organização seria a divindade que “quer eliminar o mal, mas não pode”. O discurso aponta para ambição; a estrutura decisória revela limitação. O design, nesse cenário, não falha primariamente por incapacidade técnica — embora deficiências técnicas possam coexistir. Ele falha porque o desalinhamento decisório torna impossível traduzir intenção em resultado.3

Marty Cagan, em Inspired (2017), argumenta que o fracasso de produtos raramente é técnico — é estratégico. Times de produto falham quando não há clareza sobre qual problema estão resolvendo, para quem, e por quê.4 Sem essa clareza, cada escolha de design se torna arbitrária, e o resultado é apenas o reflexo dessa incoerência sistêmica.

A dissonância estratégica é particularmente insidiosa porque permite que a organização mantenha a narrativa de compromisso com qualidade enquanto sistematicamente desinveste nos mecanismos que a produzem. É uma forma de auto-sabotagem institucional.



Complexidade: Essencial vs. Acidental, e o dinheiro deixado na mesa

Outro desalinhamento comum ocorre quando há disposição financeira para investir, mas resistência organizacional em enfrentar a densidade estrutural do problema. Aqui, é crucial distinguir entre dois tipos de complexidade — uma distinção originalmente articulada por Fred Brooks em “No Silver Bullet” (1986):5


Complexidade Essencial — É inerente ao problema que se está tentando resolver. Sistemas de saúde envolvem múltiplos atores (pacientes, médicos, operadoras, reguladores), regulações entrelaçadas, variáveis clínicas imprevisíveis e expectativas frequentemente divergentes. Plataformas financeiras operam sob malhas regulatórias complexas, riscos de segurança multidimensionais e comportamentos de usuário não-lineares.

Essa complexidade não pode ser “resolvida” — apenas compreendida, organizada e traduzida em sistemas que a tornem gerenciável. Simplificar artificialmente essa realidade não resolve o desafio; apenas o oculta temporariamente até que retorne como crise operacional ou falha sistêmica.


Complexidade Acidental — É gerada por processos ineficientes, tecnologias obsoletas, silos organizacionais ou estruturas políticas disfuncionais. Essa é a complexidade que não agrega valor; é o canal de desperdício sistêmico onde o dinheiro escoa sem gerar resultado.

Por exemplo: uma organização que mantém três sistemas legados de CRM não-integrados, exigindo que equipes façam reconciliação manual de dados, não está lidando com complexidade essencial do negócio — está acumulando débito técnico e organizacional. Eliminar essa complexidade requer enfrentar conflitos culturais, redesenhar processos e, frequentemente, tomar decisões difíceis sobre pessoas, tecnologias e poder.


A complexidade acidental não é um desafio de design — é um sintoma de negligência gerencial. E cada dia que persiste representa dinheiro, tempo e energia cognitiva desperdiçados.

Bons resultados raramente emergem de soluções simplistas aplicadas a problemas essencialmente complexos. A complexidade essencial não é inimiga do design; é a matéria-prima que precisa ser compreendida, organizada e traduzida. Negá-la não reduz o desafio — apenas adia a crise.



Governança de prioridades na prática: o caso Gov.br

Teorias são úteis; exemplos concretos são essenciais. Considere o caso do Gov.br, a plataforma unificada de serviços públicos digitais no Brasil, lançada em 2020.

O projeto poderia ter buscado uma solução superficial — um portal básico digitalizando formulários em PDF. Essa seria a escolha de baixo custo e baixa complexidade. Mas a complexidade essencial do problema envolvia:


  • Integrar sistemas legados de dezenas de órgãos federais, estaduais e municipais, cada um com arquiteturas tecnológicas diferentes

  • Atender cidadãos com níveis drasticamente variados de letramento digital, desde usuários urbanos conectados até populações rurais com acesso intermitente à internet

  • Garantir acessibilidade para pessoas com deficiência em um país onde isso historicamente nunca foi prioridade

  • Funcionar em infraestrutura tecnológica precária, incluindo dispositivos móveis de baixo custo


A decisão de governo foi enfrentar essa complexidade de frente, investindo em:

  • Arquitetura de sistemas baseada em APIs federadas

  • Design centrado no usuário com extensas rodadas de pesquisa e teste

  • Governança integrada entre múltiplas secretarias e ministérios

  • Infraestrutura escalável para atender milhões de acessos simultâneos


O custo foi alto. O cronograma foi longo. A coordenação política foi hercúlea. Mas o resultado foi transformador: em 2024, a plataforma registra mais de 150 milhões de usuários e mais de 4.000 serviços digitais integrados.6


O sucesso do Gov.br não foi apenas técnico — foi a coragem política de decidir pelo caminho mais difícil, porém correto. Foi a recusa em aceitar a falácia de que seria possível entregar excelência com baixo investimento e soluções simplistas.

Este caso ilustra que governança de prioridades não é abstração teórica. É a prática deliberada de responder, repetidamente:

  • Onde a complexidade deve ser abraçada porque gera vantagem competitiva ou valor público?

  • Onde o custo representa investimento estratégico, não despesa evitável?

  • O que realmente define um bom resultado neste contexto específico?



Design como liderança estratégica

Dizer que design é decisão significa reconhecer que o valor do design não reside apenas no que é criado, mas fundamentalmente no que se decide, deliberadamente, não fazer. O bom resultado não é a ausência de custo ou complexidade, mas o alinhamento intencional entre eles, mediado por uma compreensão lúcida do que realmente importa.

Jon Kolko, em “Design Thinking Comes of Age” (Harvard Business Review, 2015), argumenta que design amadureceu de disciplina estética para disciplina de pensamento estratégico.7 O designer contemporâneo não é apenas aquele que executa soluções — é aquele que ilumina as tensões que a organização prefere manter nas sombras, forçando a colisão entre a prioridade declarada no slide e a decisão real tomada na planilha.

Quando o design opera nesse nível, ele deixa de ser meramente execução técnica e passa a ser liderança estratégica. Isso significa:


  • Tornar visíveis as tensões que outros preferem ignorar

  • Forçar conversas difíceis sobre prioridades reais versus declaradas

  • Assumir responsabilidade pelas implicações de cada escolha

  • Antecipar consequências de trade-offs antes que se manifestem como crises


O design não resolve paradoxos eliminando tensões. Ele resolve paradoxos tornando os trade-offs transparentes e as consequências antecipáveis. É nesse ato — lúcido, responsável e profundamente estratégico — que o design se estabelece como a disciplina de pensamento que governa como organizações transformam intenção em realidade.



Conclusão: a coragem de decidir

O paradoxo de Epicuro permanece irresolvido há mais de dois milênios porque toca em contradições fundamentais sobre a natureza da realidade e do poder. O paradoxo do design, contudo, pode ser enfrentado a cada projeto, a cada escolha, a cada vez que uma organização decide com clareza o que realmente importa.

Não há fórmula mágica que dissolva o trilema entre custo, complexidade e resultado. Não há método ágil suficientemente sofisticado, framework de design suficientemente abrangente ou ferramenta tecnológica suficientemente poderosa que permita otimizar simultaneamente todas as variáveis.

Há apenas a coragem de decidir.

A coragem de enfrentar a complexidade essencial em vez de negá-la. A coragem de investir onde é estratégico, mesmo quando é custoso. A coragem de dizer não quando a alternativa é incoerência. A coragem de tornar explícito o que é implícito, de trazer à superfície as tensões que todos sentem, mas poucos nomeiam.

Maturidade organizacional não está em evitar trade-offs — está em gerenciá-los conscientemente. E design, no seu nível mais elevado, é a disciplina que torna isso possível.



Referências e leituras adicionais


Leituras Complementares:

  • Rittel, H. & Webber, M. (1973). “Dilemmas in a General Theory of Planning”. Policy Sciences, 4(2), 155–169. Origem do conceito de wicked problems.

  • Dorst, K. (2011). “The Core of ‘Design Thinking’ and Its Application”. Design Studies, 32(6), 521–532. Análise crítica do design thinking como framework estratégico.

  • Vianna, M. et al. (2012). Design Thinking: Inovação em Negócios. MJV Press. Perspectiva brasileira sobre aplicação estratégica de design.

 
 
 

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